O “moderno” CIO tem seu papel e responsabilidade “expandido” em várias empresas. Confira

 Há mais de 20 anos venho trabalhando direta ou indiretamente com tecnologia, seja como um executivo de empresas, seja nos dois últimos anos como um headhunter assistindo empresas desse setor.

Nesse período todo, tenho acompanhando com atenção a evolução do papel e das responsabilidades dos profissionais que fazem parte do departamento de Tecnologia de Informação (TI) dentro das organizações.

Mesmo antes da reserva de mercado vivida pelo país durante 1984 até 1991, os profissionais que faziam parte do departamento de Sistemas de Informação das empresas eram vistos como seres “diferentes”, capazes de operar computadores e sistemas onde a linguagem e os jargões utilizados por eles pareciam um idioma de outro planeta onde somente os mesmos poderiam palpitar e comunicar entre si. A própria postura e comportamento de um profissional dessa área era visto por muitos como arrogante e petulante, se colocando muitas vezes como o único detentor das chaves de uma caixa preta onde as áreas de negócios vinham demandar suas necessidades, tendo que aguardar até vários dias para receber um relatório num disquete ou através de várias folhas impressas em formulário continuo.

Pois bem, com o avanço inexorável da tecnologia na vida das pessoas e das corporações, ocorreu também a transição de parte dos sistemas de informação para mais perto de nós usuários mortais através do rápido avanço dos computadores pessoais (PCs) e das estações de trabalho (workstations). O departamento de TI foi crescendo em tamanho e importância estratégica e passou a ser subdividido (via de regra) nas áreas de infraestrutura, desenvolvimento, manutenção e help-desk. No comando desse departamento, surgia o CIO, senhor-supremo e dono das chaves desse legado, pago principalmente para manter os sistemas operando e continuar entregando as demandas do dia-dia para as áreas de negócios.

Viajemos alguns anos para nosso momento atual: o da Indústria 5.0 e da transformação digital. A Tecnologia de Informação passa a ser não somente um diferencial estratégico competitivo para as empresas, mas sim um imperativo “must-do” para todas elas, em todos os segmentos e em todas as geografias. Os desafios desse cenário vêm testando suas lideranças até seus limites, ou seja, como permear a transformação digital nos produtos e serviços existentes e lançar novidades que capturem os corações e as carteiras dos consumidores. Várias questões seguem povoando as mentes das lideranças nas empresas, tais como: como encontrar meios inovadores de interagir interna e externamente de uma maneira digital? Como atingir as metas num cenário de orçamentos restritos e prioridades concorrentes? No meio dessa tempestade perfeita encontram-se o CIO e seu time.

Pesquisa de 2016 da “The Economist Intelligence Unit”,  patrocinada pela SAP, entrevistou mais de 800 executivos no mundo inteiro, sendo 49% destes executivos de TI.

Divido alguns insights dessa pesquisa para ajudar-nos a entender qual deve ser o novo papel do CIO nas organizações. Em primeiro lugar, a falta de um direcionamento estratégico vindo de cima é um sinal de alerta vermelho para essa Transformação Digital. George Westerman do Massachussets Intitute of Technology (MIT) comenta: “apesar de muitas empresas estarem promovendo iniciativas digitais, bem poucas estão fazendo isso corretamente. As empresas que estão fazendo isso bem, tem focado muito mais na transformação do que na tecnologia. E liderar uma transformação claramente significa ter alguém para fazê-lo. Apesar do que se fala por ai de inovações de baixo-para-cima, as organizações que eu chamo de “digital masters”’ adotam a inovação de cima-para-baixo, sem exceções.”  Eu também corroboro dessa linha de pensamento. Para mim, o processo de transformação digital nas empresas é sim antes de tudo executado pelo comportamento e atitude das pessoas e não pela tecnologia.

Nas diversas palestras e workshops que vendo conduzindo sobre o tema, reforço sempre que esse processo é feito por pessoas e principalmente que o mesmo deve acontecer “de dentro para fora” nas organizações e não o inverso. Diversas empresas que querem “surfar” a qualquer custo essa onda da transformação digital acabam construindo verdadeiros “castelos de cartas” ao criarem suas interfaces de contato digitais com seu ecossistema de clientes e parceiros através de blogs, websites, portais, market-places, páginas em redes sociais, etc. Se um cliente acessa sua empresa para consumir seus produtos ou serviços através de uma dessas interfaces digitais, pode apostar que o nível de expectativa dele é muito alto. Ele espera um atendimento de qualidade, sem erros e muito, muito rápido. Vale lembrar que o processo para atender esse cliente é de alguma forma gerenciado por pessoas. Se alguma dessas pessoas nesse processo não entende ou não prioriza esse trinômio rapidez, qualidade e assertividade, com certeza a experiência desse usuário-consumidor será ruim. Não só esse consumidor frustrado não voltará a comprar seus produtos e serviços como também usará as plataformas e redes digitais ao seu alcance para falar mal da sua empresa para os outros. Ou seja, sugiro que tenha muita atenção para esse fato.

Voltando ao papel de quem deve liderar a transformação digital na sua empresa. Segundo a mesma pesquisa da EIU acima citada, 37% dos respondentes esperam que a liderança desse papel caiba ao CIO. Em segundo lugar 20% esperam que o CEO assuma esse papel, e em terceiro o COO para 13% dos entrevistados. No entanto, 16% dos entrevistados responderam que as iniciativas digitais nas suas organizações não são propriedade de um único C-level, mas de vários ao mesmo tempo. Interessante notar que 91% dos entrevistados reportaram que as iniciativas digitais lideradas por um CDO (Chief Digital Officer) e um time dedicado são as de maior sucesso. Esse percentual cai para 75% quando o CIO acaba liderando essas iniciativas. Dos respondentes, somente 14% disseram que o CIO e sua equipe lideram as iniciativas de inovação nas suas empresas. Interessante também é o fato de que os executivos respondentes das áreas “não-TI” ficariam muito felizes ao verem seus colegas de TI assumindo esse papel de protagonista nessas iniciativas digitais. Mais ainda, não se questiona que um departamento de TI focado em inovação agrega mais valor para a empresa (87% dos respondentes disseram que quando seus departamentos de TI são mais focados em inovação do que em eficiência, as iniciativas digitais são mais efetivas).

O fato é que o “moderno” CIO tem seu papel e responsabilidade “expandido” em várias empresas.  Segundo comenta Anthony Roberts, CIO da Walgreens Boots Alliance (a maior cadeia mundial de farmácias): “O CIO hoje em dia tem que fazer de tudo – desde ser o chief police officer em alguns casos até o chief efficiency officer em outros, além de ser o digital evangelist” dentro das organizações”.

No cenário atual das organizações, está mais que claro que todas esperam mais do CIO e do seu time, principalmente assumindo um papel de liderança nessa nova fase da transformação digital. Os CIOs terão que saber exatamente o que suas lideranças estão pedindo a respeito das suas necessidades e metas, e em muitos casos, assumir um papel proativo e protagonista para a chamada “digitalização” das empresas.

Não somente os CIOs das empresas “nascidas digitais” devem protagonizar esse novo papel de inovação nas organizações. Os CIOs das empresas tradicionais também devem assumir essa responsabilidade, agindo e pensando da mesma forma que seus pares das empresas “nascidas digitais” para que seus empregadores não sejam engolidos pela transformação digital. Vale lembrar da frase muito bem colocada por Klaus Schwab, fundador e presidente do World Economic Forum: “Neste novo mundo não é o peixe grande que come o peixe pequeno. É o peixe rápido que come o peixe lento”.

Fonte: CIO
Autor: Marcus Vinicius Giorgi