Walkiria Marquetti, diretora-adjunta de tecnologia do Bradesco, conta sua trajetória na instituição e dá dicas para mulheres que querem seguir carreira na área

Quando concluiu a graduação em Matemática, Walkiria Marquetti não sabia como aplicar os conhecimentos adquiridos na vida profissional. Mas foi nessa mesma época que viu um anúncio no jornal sobre um curso de programação e decidiu experimentar aquela nova área. “No transcorrer do curso, dois acontecimentos foram fundamentais para eu seguir carreira em TI. O primeiro motivo foi o desafio intelectual e o outro a satisfação pessoal de superar o desafio. Não foi pelos bits e bites, mas pela capacidade e vivência”, conta hoje a diretora-adjunta da área de Tecnologia da Informação do Banco Bradesco.

Ao finalizar o curso, a turma foi informada sobre o início de um processo de seleção no Bradesco, onde Walkiria já soma 37 anos. “Entrei como assistente de programação e fui galgando posições”, diz.

A executiva foi pioneira em várias frentes no banco. A começar pelo fato de ter sido a primeira superintendente mulher em TI. Depois, a primeira diretora departamental e ainda como diretora-executiva entre as colegas. Hoje, o Bradesco possui em seu quadro de funcionários um total de 52.113 mulheres, o equivalente a 51% do quadro geral. Na área de Tecnologia da Informação, dos 3.963 funcionários, 30% são mulheres.

Walkiria ressalta que apesar de tanto tempo de casa, teve a oportunidade constante de percorrer diferentes desafios na empresa, muito em função do avanço tecnológico e de posicionamento inovador do próprio banco. “Passei, assim, a desenvolver novas competências. Sempre buscando novas habilidades técnicas e comportamentais, conforme eu crescia profissionalmente.”

Ela lembra de vários marcos em sua carreira e concorda que é até difícil pontuar o mais emblemático. Um dos casos citados por ela nos remete aos anos 80, quando o setor financeiro passava por grande transformação. “Buscávamos, na época, automação de processos e redução de prazo de compressão de cheques”, recorda. Já na década de 90, o fenômeno da internet tirou todas as empresas da zona de conforto e o Bradesco logo correu para desenvolver capacidades importantes, como a operação 24×7 e o reforço da segurança, já que o banco não estava mais em um local físico, estático.

Em 2000, o Bug do Milênio tirou o sono de empresas e profissionais. Walkiria e seu time trabalharam por cinco anos para afastar as, até então, convicções de que um grave problema nos sistemas aconteceria, dizimando empresas. Três anos depois, ela participou da ampliação dos canais alternativos de atendimento. “Na época, a estrutura ficou mais complexa. Foi quando repensamos a arquitetura de aplicações do banco, orientada a serviços, de forma a levar mais flexibilidade aos negócios em linha com a visão do cliente.”

O projeto foi longo, com duração de quase dez anos, algo que Walkiria se orgulha de ter participado. “Somamos mais de 2,5 mil profissionais envolvidos e 11 mil horas de desenvolvimento”, comenta orgulhosa.

Capacitação como chave

Em todas as fases de mudança tecnológica e transformação do banco, Walkiria relata que um ingrediente foi fundamental em sua carreira: a capacitação. “O desenvolvimento do setor e o incentivo do banco me motivaram a apostar no meu desenvolvimento. Todo profissional deve buscar capacitação, formal e informal”, aconselha.

Ela aponta que passou a agregar ao seu currículo cursos e MBAs, inclusive internacionais nas mais renomadas universidades do mundo, como Harvard e Wharton. “O banco me permitiu uma espécie de período sabático de três meses, quando pude aprimorar minhas capacidades”, conta.

É por isso que Walkiria recomenda que os profissionais, homens ou mulheres, estejam prontos para quando a oportunidade aparecer. “A tecnologia é alavanca para proporcionar esses desafios. Em qualquer setor e em qualquer tipo de empresa, as oportunidades acontecem e você precisa estar pronto. Se você gosta de ser desafiado todos os dias, trabalhe na TI.”

Gênero

Walkiria aponta que em sua carreira não sentiu a pressão de ter de provar sua competência todo o tempo pelo fato de ser mulher. “Não sei se foi miopia minha, mas nunca senti tratamento diferenciado”, revela. Ela aponta que, sim, sempre houve um cuidado do time por ela ser mulher, especialmente quando havia a necessidade de participar de projetos que varavam a noite.

Olhando para sua trajetória no banco e para as futuras gerações, Walkiria relata que, de fato, faltam mulheres no mercado de TI, mas a evolução nos últimos anos foi enorme. “Nunca tivemos um momento tão favorável para a participação mais efetiva das mulheres na TI, em todos os níveis hierárquicos”, opina.

O desafio a ser superado, no entanto, observa ela, é o conflito de meio de carreira, quando há muitas mulheres que assumem cargos gerenciais e ao mesmo tempo formam famílias. “Esse conflito é muito delicado, é íntimo. Contei com ajuda fundamental do meu marido e da minha sogra nessa fase. Mas entendo que nem todas as profissionais têm esse tipo de apoio”, comenta.

Fonte: CIO